Se tem uma coisa que me incomoda em São Paulo é a falta de estrutura para se ter uma vida saudável sem precisar gastar horrores em uma academia fechada. Aqui não tem ciclovia que ligue vários pontos da cidade, não tem parques com pista para correr em todos os bairros, as ruas são um sobe e desce infinito e para chegar ao Ibirapuera, por exemplo, é necessário sair vencedor do trânsito da Avenida Brasil – meu caso, pelo menos. E vamos combinar que não há nada mais estressante do que alguns bons minutos parado entre os carros, ainda mais quando o que você mais quer é exatamente o oposto: andar, correr, pedalar. Por essas e outras, fazer uma pequena caminhada em São Paulo acaba virando toda uma função. Aqui, a menos que você more em frente a um parque, sair para se exercitar vira um programa como ir ao cinema, a um restaurante ou ao teatro (precisa de carro, estacionamento, você fica num único lugar e depois vai embora), com a única diferença que não há filas quando se chega ao destino, coisa que eu também não duvido que aconteça num futuro não tão distante, porque lugar sem fila aqui é meio que uma raridade, uma atração turística.
Semana passada eu fui para o Rio, e claro que nem preciso dizer que lá o esquema é completamente diferente. Imagino que na terra dos cariocas o problema seja outro. Enquanto aqui em São Paulo a gente implora para a cidade por um pouco de vida saudável, lá é a cidade que clama que seus habitantes aproveitem tudo que ela pode oferecer para uma rotina mais leve. E como D’us dá pão para quem não tem dente, duvido que chegue a um terço da população o número de gente que corre pela Lagoa Rodrigo de Freitas, dê um mergulho todo dia antes de ir ao trabalho, pedale pela orla e etc. Acho que quem acaba fazendo isso pelos cariocas são os turistas deslumbrados, tipo eu, que deixei a cidade com uma programação saudável completa para o caso de um dia eu me mudar para lá; e as celebridades e subcelebridades, que aparecem todo santo dia no Ego pegando uma praia, fazendo uma caminhada ou jogando um vôlei na areia.
Tudo bem, o Rio é tipo aquelas pessoas que passaram 1000 vezes pela fila da beleza antes de virem ao mundo e isso não dá pra contestar. Ou melhor, não dá pra fazer nada a não ser invejar. A cidade tem calçadão com vista para o mar, tem uma orla imensa que dá pra treinar até para a Corrida de São Silvestre, tem ciclovia, tem a Lagoa, enfim, tem coisa suficiente para qualquer real gasto em academia se transformar no maior desperdício de dinheiro já visto. E mesmo que não tivesse todas essas belezas naturais, ainda dava pra ser pelo menos um pouquinho mais saudável que a terra da garoa aqui.
Santiago, por exemplo. Não tem praia, não tem Lagoa, mas é uma cidade grande com um espírito light, digamos assim. Passei agora nas férias um mês no Chile, e juro, eu seria capaz de me mudar pra lá só pelos hábitos que a capital – e sua população – tem. Pra começar, a cidade é plana e não tem buracos nas calçadas. O que isso significa? É tranquilo deixar o carro na garagem e fazer tudo caminhando E, se já não bastasse isso, o pessoal de Santiago ainda tem toda uma cultura com bicicletas, do nível mulheres de salto indo trabalhar pedalando. Além disso eles têm ciclovia pela cidade, em todo lugar tem tipo um estacionamento para bicicletas e quem não tem uma magrela pode usar de graça as bicicletas dos setores, que é como eles chamam os bairros.
Mas o mais impressionante de tudo eu vi no meu último dia por lá. Tem uma avenida, se não me engano, que além do espaço para os carros passarem, calçadas para pedestres e ciclovia para as bikes, ainda tem uma pista DE AREIA para o pessoal correr como se estivesse numa praia. DE AREIA. E tudo muito limpo, assim como a cidade toda. Pra mim isso é coisa de outro mundo. Um mundo, aliás, em que eu adoraria viver. Mas enquanto as coisas não mudam por aqui, o que me resta é depositar o dinheirinho – que de “inho” não tem nada -, na conta da academia perto de casa. E um “viva!” para as pedaladas sem sair do lugar, para a corrida em que não se chega a lugar nenhum e para o ar condicionado que faz disso tudo a experiência saudável mais artificial que existe.